segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Como eles conseguiram aquele som? Appetite for Destruction - Parte 4 - Vamos falar de Amps

Há alguns anos, quando foi lançado o jogo Guitar Hero 3, vazaram na net tracks da música Welcome to the Jungle onde você podia ouvir sons de guitarra praticamente isolados. Como guitarrista eu fiquei mais ou menos assim "UAU QUE QUE É ISSO!!?".

O timbre era impressionante, e comparado ao som que eu ouvia sair do MEU amplificador, estava anos luz à frente.

Este dia nunca mais saiu da minha mente...

Anos depois quando resolvi gravar meu próprio disco este dia veio à minha mente. Pensei "preciso descobrir como aqueles caras conseguiram isso", e foi assim que começou minha busca pelo som do Appetite for Destruction.

 Demorei bastante tempo para iniciar este Post, pois o assunto é longo e complexo. Mas uma vez que você começa é muito difícil parar a pesquisa, porque tem muita informação interessante pra ser abordada. 

 Nessa segunda parte do texto sobre o Appetite for Destruction quero analisar o Amplificador usado pelo Slash para a gravação do álbum.  Assim como nos posts anteriores sobre a guitarra usada nas gravações, há também muita contradição sobre o amplificador usado.

 Este artigo tenta trazer à tona alguns fatos e discutir informações, porém é muito difícil colocar um ponto final num assunto que vem sendo discutido desde que o clipe de Welcome to the Jungle estreou na MTV. Não posso deixar de citar o site http://www.slashsworld.com/ que me ajudou bastante nessa pesquisa com valiosas informações.

S.I.R

Quando eu comecei a pré produção de O Lado Negro da Cidade, já tinha uma boa guitarra (uma Gibson Les Paul) e um amp que considerava honesto. Porém após a primeira gravação fui ouvir  o som gravado e adivinhem? 


Uma caca. 

Interessante como a gente descobre essas coisas não? E quando comecei a pesquisar sobre a gravação do Appetite me identifiquei imediatamente, pois foi durante a gravação que o Slash percebe que o som não era bom e resolve correr atrás de equipamentos decentes.

  Quando Slash começou a "correr atrás" de um amp a alternativa encontrada foi alugar um bom cabeçote Marshall. Então solicitaram à S.I.R (Studio Instrument Rentals) alguns cabeçotes para experimentar. Durante o processo Slash testou mais de 10 cabeçotes Marshall até escolher um único amp. Segundo Slash, ele tinha um som especial que nenhum outro possuía. 

 É engraçado pensar que em meio a tantos amps teoricamente iguais, um deles tinha um som diferente e é engraçado pensar que um dos pontos mais importantes para que o Appetite tenha o som que tem foi o total acaso, se é que o acaso existe.


 Slash e a Marshall

 Gostaria só de fazer um adendo, para os músicos que estão acompanhando essa série (acredito que a maioria sejam músicos). Ao que me parece depois de ler vários textos, Slash nunca cogitou usar outro amp que não fosse um Marshall na gravação do Appetite. 

Em fotos bem antigas podemos ver ele tocando com outras marcas, mas quando ele estava no processo de escolher qual amp ia alugar, nada indica que ele tenha SEQUER TESTADO outra marca de amplificador no estúdio.

 Ele testou outras marcas sim, mas bem antes, veja abaixo:

Slash com amps Risson

Ou seja, ele já sabia muito bem que timbre buscava!!!

Mas se você como guitarrista admira o timbre dele, precisa de um Marshall também, correto??!!

Não, incorreto. Você pode usar sons de outros caras como referência, mas deve buscar o que melhor traduz a sua personalidade. Eu por exemplo, sempre gostei mais do "jeito" que os Fender distorcem.


 
 Gravação do Appetite

 Depois de escolhido, o amp misterioso foi usado exaustivamente nas partes gravadas por Slash no Appetite for Destruction (o disco foi gravado entre agosto e dezembro de 1986). Slash reconheceu que o amp era diferente, especial, e por isso tentou convencer a S.I.R a vendê-lo pra ele. Porém a tentativa foi negada diversas vezes. Até que Slash decidiu tentar roubá-lo...

 O “Roubo”


 O meu Holy Grail dos amps surgiu de uma forma totalmente diferente, após descobrir que eu curtia os Fenders comecei a procurar um amp da marca ou que tivesse um timbre parecido. Eu queria um combo pois acho eles mais estilosos, e são simples , o que me atrai muito. Porém queria algo grande e acabei pegando um combo valvulado com 4 falantes de 10. Incrível... 

Quando gravei com ele fui da terra ao paraíso em menos de 15 segundos de riffs.

Agora imagine você atingir o timbre dos seus sonhos e depois ter que entregar o amp de volta? 

Triste né.

Apesar de não apoiar a ideia do Slash, vamos lá...

A ideia de Slash era informar à S.I.R que o cabeçote havia sido roubado, e o manter guardado, Aparentemente o plano foi até certo ponto "bem-sucedido",  porém um rodie desavisado levou o amp. pros estúdios de ensaio da S.I.R., provavelmente em algum momento em 1987 após a gravação do disco, onde ele foi reconhecido e levado de volta por técnicos da S.I R..  Slash conta que depois disso a relação entre ele a S.I.R. nunca mais foi a mesma, e ele nunca mais viu o amp. Sabemos então que o resultado do som do Slash no disco é a união de uma guitarra única, com um amplificador único.

 E pra quem não tem condições de alugar uma dezena de amps e sair testando pra escolher o seu, existem outras alternativas. Hoje em dia você consegue ensaiar em lugares que possuem várias marcas. Tem também muitos vídeos no Youtube e tal. Talvez você não tenha uma historia tão emocionante pra contar se comprar seu amp no Mercado Livre, ou talvez tenha, nunca se sabe o louco que está por trás de cada anúncio, mas o mais importante é que todo guitarrista deve encontrar o seu Holy Grail,

 Bom, sobre a guitarra já temos vários detalhes, porém e a respeito do amplificador?  Nosso desafio agora é descobrir alguma coisa sobre ele, afinal só sabemos que era um cabeçote Marshall.

Mas Slash não foi o único...

 George Lynch estava ensaiando (NO ESTUDIO DA S.I.R) em 1985 com o Dokken para a tour Under Lock and Key , e ficou impressionadíssimo com um cabeçote da S.I.R. conhecido por eles como stock#39, um cabeçote Marshall que havia sido modificado pra soar diferente dos demais.  George, por mais que tentasse, não conseguiu convencer a S.I.R. a vender o amp e nem a informar quem fez a modificação; então ele desembolsou uma bela grana pra levar o cabeçote alugado na tour, até aproximadamente setembro de 1986 (As gravações do Appetite começaram em Agosto daquele ano).
 Depois disso, George conseguiu descobrir o nome da pessoa que fez a MOD e encomendou a mesma mod em alguns de seus amps.

O legado do Appetite For Destruction

 Não preciso dizer que depois da explosão do Guns n’ Roses muitas pessoas começaram a tentar atingir aquele timbre, ou simplesmente saber como Slash conseguiu aquele determinado som característico.

 Isso me leva a um flashback diretamente ao meu estúdio, com minha guitarra e tentando posicionar o microfone da maneira certa, pra ter o som certo. Timbres como a abertura de Sweet Child O’ mine,  o timbre distorcido e melódico do captador do braço, são marcantes a ponto de poder reconhecer a música com uma só nota!

 Porém as pesquisas sobre o timbre sempre esbarraram na falta de informação, ou informações conflitantes por parte do Slash ou participantes do processo de gravação. Além do mais, o álbum já tem mais de 25 anos e quando ele foi feito ninguém estava dando muita bola. Ninguém imaginava o tamanho que chegaria o Guns n’ Roses.

 Não preciso dizer que há a possibilidade de o #39 ter sido usado tanto por Slash quanto por George Lynch. Primeiramente porque ambos descrevem o amp como sendo muito diferente em termos de timbre dos outros cabeçotes da S.I.R. 

O que sabemos até agora é que existiu um #39 Marshall modificado que pode ter sido usado por George Linch do Dokken em turnê e no Appetite for Destruction do Guns n' Roses. Mas vamos tentar cavar mais fundo e aprofundar-nos mais nisso.


 O técnico Misterioso

 Graças à conexão com George Lynch, o técnico que trabalhou na S.I.R. e modificou o #39 é conhecido:  seu nome é Tim Caswell e ele possui uma empresa, e produz seus próprios amplificadores.

 Na época em que trabalhou na S.I.R. Tim era o único técnico que fazia modificações nos amps.  A S.I.R. possuía diversos Marshall Super Lead  em que Caswell fez uma modificação que ele chama de “stage one mod” que consistia em aumento de médios. A S.I.R possuía apenas UM 1959T (similar aos outros, porém com um circuito de tremolo valvulado) no qual Caswell aplicou a sua mod. de aumento de ganho.

 A ideia da mod surgiu após o footswitch do amp ter sido perdido, o que era necessário para o acionamento do tremolo valvulado.  Este circuito valvulado foi convertido então em um estágio extra de ganho no pré amp, tornando o mesmo mais voltado para sons quentes de rock n’ roll.
 Por muito tempo foi o amp mais requisitado da S.I.R. e altamente recomendado para clientes que gostariam de obter uma sonoridade mais quente.


 Até hoje muitos pedem para Tim as modificações e ele segue fazendo em diversos modelos de Marshall.  

                     Veja abaixo Tim testando uma recriação do #39 que ele comercializa.






No site da empresa dele há uma explicação mais detalhada da modificação que ele criou no Marshall #39 - http://caswellamps.studioelectronics.com/39Mod.html


Imagem de um Marshall 1959T


E aparentemente até hoje o único 1959T modificado por Tim foi o cabeçote da S.I.R. .



 Where do we go now?  Glenn Buckley

Ja sabemos que existia um amp modificado, o Stock 39# e sabemos que foi modificado por Tim Caswell, sabemos também que Lynch alugou este amp e adquiriu cópias dele junto a Caswell. Resta saber se esse é realmente o amp que Slash usou na gravação, até agora tudo indica que sim.

 Eis então que surge um novo personagem desta historia. 

Afinal como George Lynch chegou a Tim Caswell se a S.I.R. não queria revelar o nome do técnico que modificou o amp??

 A resposta é Glenn Buckley, este é o nome do funcionário da S.I.R. na época que informou a Lynch o nome do técnico que fez a mod no #39, e o que vem a mente em seguida é “quais outras informações este cara pode ter?” .

 Glenn trabalhou aproximadamente 5 anos na S.I.R.  e possui detalhes de diversos modelos de amps da empresa vivos em sua memória, dentre eles o #39.
 
 Os ensaios Pré- Appetite

 Na primavera de 1986 o Guns n’ Roses havia assinado contrato com a Geffen e eles pagaram os estúdios da S.I.R. para que a banda ensaiasse e trabalhasse nas músicas de seu primeiro disco. Nesta época a tour de George Lynch com o #39 já havia acabado.

 Alguns amps foram disponibilizados pela S.I.R. para que Slash escolhesse um. A escolha foi certeira, ele escolheu o #39.  Meses depois um segundo contrato de locação de equipamentos foi feito, e nele a banda especificava que queria utilizar o #39.

 O problema é que Glenn lembra-se de que este amp havia sido alugado e não estaria disponível na época das gravações do Guns n’ Roses, nada mais normal que isto, já que era o amp MAIS requisitado da S.I.R. .

 Então como a S.I.R. resolveu esse problema???? 

Bom isso a gente vai ter que aprofundar melhor depois.


Continua...