segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Como eles conseguiram aquele som ? Appetite for Destruction - Parte 1 - A guitarra do Slash

 Estou inaugurando essa sessão do blog onde eu quero abordar o timbre tirado em grandes
álbuns por grandes guitarristas, e a obra que inaugura essa sequência de postagens é o icônico Appetite for Destruction do Guns 'n Roses.
 Acredito que atualmente não seja necessário fazer uma apresentação para este álbum, pois as músicas são executadas exaustivamente em rádios, programas de tv, festas, propagandas, filmes. Já é um clássico e ponto.
 Porém é incrível como podemos nos surpreender onde menos esperamos. Talvez seja isso que torne determinadas obras tão impactantes. Deixe-me explicar melhor o que quero dizer. Eu ouço este álbum há mais de 10 anos, talvez seja o álbum que mais ouvi até hoje, portanto foi uma escolha natural para o início desta sessão no blog, e para minha surpresa, depois que comecei a pesquisar sobre ele, descobri histórias e ouvi coisas que ainda não tinha ouvido. É incrível como ele ainda tem elementos que são novos pra mim; talvez essa seja a profundidade que pode tornar uma obra à prova do tempo, que pode ser sempre revisitada sem nunca se tornar datada. Enfim, vamos à história.

 A guitarra do Slash





 Como este é um assunto extenso decidi dividir as postagens em alguns capítulos, e o primeiro deles não poderia ser outro: as guitarras utilizadas por Slash na gravação do álbum.
 Após a explosão do Guns n' Roses no final da década de 80, num período da música em que a guitarra tinha se tornado pasteurizada devido à extensa utilização de efeitos, Slash chamou a atenção do público e da mídia por trazer de volta um estilo clássico, baseado nos grandes guitar heroes dos anos 70. Era a velha combinação de Gibson Les Paul e Marshall.

  Porém, o que torna essa história interessante é que a guitarra que ficou famosa junto com Slash não era uma Gibson!  Vocês podem argumentar que nos clipes iniciais vemos sem dúvida nenhuma o logotipo da Gibson no headstock da guitarra, e vocês estão certos quanto a isso. Porém esse logo está ali pois a guitarra é uma réplica que segue precisamente os padrões da Les Paul Gibson.

 Gravando o Appetite



           O produtor  Alan Niven

Atualmente estão disponíveis na internet e em revistas dezenas de matérias (a maioria em inglês) dos ex integrantes do Guns n' Roses nas quais qualquer assunto ligado ao Appetite é discutido. E a história que é contada por Slash e Alan Nieven (produtor do Guns na época da gravação do Appetite) é muito similar.
 No período em que a banda ia gravar, os membros do Guns n' Roses estavam afundados até a cabeça em festas, festas, mulheres, drogas e festas. E em uma delas a banda teria destruído seu apartamento, tendo um prejuízo de aproximadamente 20 mil dólares.  Somando isto ao fato de heroína ser algo bem caro, temos Slash prestes a gravar o que viria a ser um dos álbuns mais importantes da história do rock "recente" e sem ter uma boa guitarra.  Devido ao vicio em drogas ele havia penhorado sua melhor guitarra, uma Les Paul, ficando apenas com três guitarras.

 Slash diz: "Basicamente, eu não tinha nada: na época eu estava apenas com três guitarras. Duas eram Jacksons, uma das quais tinha sido feita especialmente pra mim: era uma Firebird preta com a minha tatuagem de Shirley no corpo (tinha um som de merda). A outra era um protótipo ao estilo da Strat com um corpo em arco que me emprestaram e eu nunca devolvi. Era uma das únicas duas que ja haviam sido feitas. A terceira era uma BC Rich Warlock vermelha. E nenhuma delas soava bem pelos alto falantes."


*Slash com a B.C. Rich

 Slash também diz é que você não conhece o som real de uma guitarra até começar a gravar com ela. Sim, isso mesmo, ele acreditava que o som dessa guitarra era bom, mas quando começaram as gravações, viu que estava em apuros. Slash - "Quando ouvi o playback, percebi que estava em apuros:minha guitarra soava uma merda através de uma mesa de som de um estúdio de verdade". 
 Tanto a Warlock quanto a Jackson não estavam fazendo com que ele conseguisse aquele som que já havia conseguido em outros tempos utilizando uma Les Paul. Estou me referindo principalmente ao som de guitarra solo. Nesta época Slash já havia se desfeito de uma Les Paul e tinha ficado obcecado em conseguir aquele som novamente. 
 Slash não esconde a frustração que sentia na época "Tinhamos chegado muito longe, e eu estava determinado a fazer com que o som da minha guitarra ficasse perfeito no disco. Mas não sabia como conseguir esse milagre, por que estava, digamos, na maior pindaíba. Tentei amenizar como me sentia durante aquelas gravações de faixas básicas bebendo muito e adiando o inevitável enquanto tocava com a banda, sabendo que, de algum modo, teria de resolver aquilo e gravar de novo todas as minhas partes".
*Slash com a Jackson

 Alan Niven conta também que as cordas da Jackson estavam podres, ele disse para o guitarrista  "Slash, suas cordas estão mortas". Então Slash foi trocar as cordas, e as tirou todas de uma vez, fazendo com que o braço empenasse. Segundo Niven, "a afinação daquela guitarra nunca mais foi a mesma" .
 Por coincidência minha primeira guitarra foi também uma Jackson, no meu caso uma Jackson Dinky. Essas guitarras são bem legais, e eu tenho a minha até hoje. Porém o timbre é totalmente diferente da Les Paul, acho que o que Slash queria era um som específico de Les Paul e com um cabelinho a mais de médios pra guitarra aparecer mais no mix final.
    Mas vamos parar a história neste ponto e voltar a ela depois.


 Kris Derrig




 Kris Derrig foi um excelente Luthier norte americano, infelizmente já falecido. O cara morreu novo, em 1987, com apenas 33 anos, e muitos dizem que sua morte foi consequência de horas construindo guitarras sem proteção nenhuma contra os elementos químicos utilizados na construção e acabamento do material.

 Kris era um rapaz muito focado, apaixonado por carros, The Allman Brothers e guitarras, além de ser cabeleireiro. Os mais próximos contam que quando ele se interessava por algo, ele era muito intenso, chegando a ser até meio bitolado, obcecado, etc... Bom, posso dizer que entendo esse cara... Quero frisar que este cara era um gênio não somente na construção de guitarras, em tudo que ele se interessava profundamente ele desenvolvia um conhecimento muito grande. É uma pena ter morrido tão jovem.

 Esse fascínio e obsessão por guitarras foi o que o permitiu atingir um nível de excelência na construção do instrumento. E tal qualidade chamou a atenção de Jim Foote, um negociante de instrumentos.
 Kris conheceu Jim Foote em 83, quando tentava vender a ele uma guitarra na qual ele havia refeito o acabamento. Impressionado, Jim contratou Kris para trabalhar na finalização de guitarras na Redondo Shop (California). Em 86, Jim Foot e Kris Derrig conseguiram a madeira que utilizaram para fabricação de diversas guitarras, incluido a Les Paul que viria a ser de Slash. Antes de ir parar nas mão de Slash em 22/12/1986, esta guitarra ficou cerca de 6 meses parada na loja.

 Kris fez essa guitarra para arrecadar mais fundos que iria utilizar na personalização de um de seus carros.


  Voltando a Slash e Alan Niven... 

 Decidido então a encontrar uma boa guitarra para Slash gravar o álbum , Niven contata Jim Foote, da Redondo Shop. Não preciso dizer que a Les Paul réplica feita por Derrig vai parar nas mãos de Slash.  Jim Foot concorda em deixar Alan Niven levar a guitarra para Slash tocar e no dia seguinte ele é fotografado usando a guitarra na Cat House, num show de lançamento do EP Live Like a Suicide.

 Slash relembra o momento em que recebeu a guitarra de forma romântica "Alan entrou na sala de controle e pousou um estojo de guitarra no pequeno sofá atrás da mesa de som. O espaço apertado onde se encaixava o sofá era iluminado por uma lâmpada logo acima, cuja luz realçou perfeitamente a guitarra quando Alan abriu o estojo"

 Essa guitarra traduziu em som o que Slash procurava e chegou em tempo de ser utilizada para as gravações dos solos do disco (as bases já haviam sido gravadas);  segundo o guitarrista, ela foi utilizada em todos os seus solos no disco Appetite for Destruction.
 A guitarra feita por Derrig é uma burst, réplica da Gibson Les Paul 59, porém com captadores Seymour Duncan Alnico Pro II e o braço similar ao da Gibson 58, um pouco mais grosso, que segundo alguns confere um som especial à guitarra.
 Os captadores foram uma sugestão de Jim Foote; aparentemente estes eram seus preferidos, e é incrível como isso foi importante para fundamentar o timbre do Slash definitivamente.



 Entrando para a história



 O que Slash não imaginava é que aquele som gravado no Appetite for Destruction se tornaria icônico e não poderia nunca mais ser reproduzido, nem mesmo por ele em outros discos (vamos discutir isso mais a fundo em outros posts).
 A combinação das caraterísticas da réplica feita por Derrig somadas à utilização de um captador que não vinha de fábrica com a original resultou num timbre particular e que se tornou referência.
 A morte de Kris Derrig tornou essa guitarra ainda mais valiosa, pois acredita-se que ele tenha feito apenas 24 Les Pauls em toda sua vida. E acredite, elas valem muito dinheiro e há muitos colecionadores interessados.
 O próprio Slash comprou mais uma Les Paul feita por Derrig, em 1996, de Jim Foote.



A réplica da réplica
À esquerda, a nova Gibson Slash AFD e à direita a guitarra que Slash vem usando desde o Appetite for Destruction

 Recentemente a Gibson lançou uma réplica da guitarra de Slash. Muitos criticam por ser a réplica da réplica, mas eu acredito que é um instrumento especial, com características únicas e que foi totalmente baseado na Gibson, o que não deixa de ser uma homenagem à marca.
 Devido a isso acho válida a inciativa deste lançamento. A versão da Gibson vem com os captadores Signature do Slash, feitos pela Seymour Duncan e baseados nos caps da guitarra do Derrig.
 A Seymour Duncan afirma que os captadores novos do Slash foram criados para dar mais saída, deixando o som mais agressivo, assim como o som do Appetite for Destruction. Honestamente eu não tenho uma opinião muito clara sobre estes captadores (nem os Signature e nem os Alnico Pro II da guitarra feita pelo Derrig), pois nunca toquei com nenhum deles, porém fiquei interessado.
 Pessoalmente eu gosto de captadores mais agressivos na ponte, mas isso é conversa pra outro post.


Por hoje fico aqui, porém veja abaixo a sequência deste artigo em outro post:


Como eles conseguiram aquele som ? Appetite for Destruction - Parte 2 de 5 - A Guitarra do Slash


domingo, 13 de outubro de 2013

Meu Equipamento (Gear) Parte 1 - PEDAIS

 Desde que escasquetei com a ideia de que seria possível gravar um disco, com altíssima qualidade de som, em um home studio comum, a coleção de pedais começou a aumentar sensivelmente.

 Eu chamo este vício de "coleção"

O processo de pré-produção consiste em ir fazendo "guias" das músicas, que são guitarras base com metrônomo. Desta forma vou definindo a composição, enquanto compro equipamentos e faço experimentações no timbre da guitarra.

Conseguir um excelente timbre de guitarra é um processo complicado, é quase que um processo mágico, espero conseguir dividir um pouco dessas experiências no blog.



Primeiro quero falar daqueles que eu levo pra gigs.  Let's talk about pedals!


Stax Rocks - Mg Music

 Este pedal da MG chegou aqui por acaso; eu estava interessado em adicionar um Wha no meu set e já conhecia este pedal por te-lo visto na internet. Então vi um anúncio de um pedal à venda e resolvi levar. Eu ainda não o usei em nenhuma gravação, porém pretendo explorá-lo bastante neste sentido pois ele é um pedal bem versátil.

 As características que me agradaram é que ele tem diversas opções de regulagem que mudam a frequência em que o pedal atua. Dessa forma você consegue ajudar para que a área de frequência em que o pedal trabalha coincida com o timbre da sua guitarra. Se você possui uma guitarra mais grave o Wha pode "falar" mais na região dos graves. Se tem um set onde se destacam os médios idem. O pedal tem 6 opções de regulagens.  Além disso possui uma chave que muda o indutor do pedal, tendo assim 2 tipos de timbre. Um mais clássico e um com uma leve modulação junto com o Wha que lembra me um phaser.

Octavio - Dunlop

 Em 2013 saí de férias, viajei pra Londres, e
obviamente já saí daqui com planos de trazer alguma coisa de lá. Tava de olho nele porque adoro fuzz com Octave UP, na verdade considero ele outro efeito.
 Este pedal tem como principal referência Jimy Hendrix, seu grande popularizador.. Ele mistura com o som que você toca, o som de uma nota uma oitava acima e é claro, adiciona distorção na equação.
 Ele soa legal tanto pra solos como pra bases com power chords. O Octave Up é bem cheio e também deixa a guitarra gigante nos riffs. Quero fazer um post só pra ele em breve.


Power Driver SI - Plan 9



Infelizmente a Plan-9 encerrou as atividades em 2013, por que este pedal é fantástico. Clone do Colorsound Overdriver, porém com um bonus, uma chave que aciona um estágio extra de ganho. Dessa forma o que era pra ser um Boost/Overdrive consegue soar até como Fuzz. No meu set de shows uso como boost pro drive do amp. Adiciono volume e um pouco de drive, os controles de eq funcionam muito bem e você consegue regular ele como um boost full range, treble boost ou bass boost. Em estúdio vou mais além e uso como drive e fuzz também.









That's Echo Folks - Mg Music

 O último pedal da cadeia, o Echo Folks é um delay analógico com o som muito quente e cheio de recursos
pra viagens psicodélicas.
 Basicamente eu o uso para criar ambiências para os solos, isso é uma herança que tenho da influência do Randy Rhoads, foi  primeiro cara que curti que usava delay desta forma.
 Quando toco em trios uso os efeitos malucos dele pra poder variar mais o som no show. No disco do Valete in Blues usei ele bem de leve pra criar ambiências nos solos, no meu disco mais novo, quero explorar mais ele, usando alguns dos efeitos psicodélicos que ele proporciona.









Da esquerda para direita: Echo Folks, Big Muff Pi, Octavio, Alien Booster e Stax Rocks


Na Prateleira


Big Muff - Electro Harmonix


Este pedal fez por uma tempo a função principal no meu set, a "distorção" central do sistema como um todo.
 Atualmente uso ele principalmente pra gravações, o som é bem comprimido e ele deixa alguns riffs gigantescos, Quanto quero um som pesado recorro ao Muff.
 A propósito, eu ja escrevi um texto mais detalhado a respeito do Big Muff, você pode ler ele clicando aqui.




Classic 68 - Plan 9 


Esse é um dos preferidos, um clone do Fuzz Face com transístores de silício, que possuem um som com mais ganho que a versão germânio. Talvez seja o som mais clássico do Fuzz, tem um timbre bem profundo e é um pedal bem versátil. Essa versão da Plan-9 possui um filtro que quando acionado corta graves, com a ideia de permitir o uso do pedal com humbuckers diminuindo o grave excessivo. No meu caso uso esse corta graves como recurso alternativo, pra gerar timbres mais magrelos e estranhos pra algum trecho de música. É um dos principais pedais das gravações e as vezes também vai pra gig. 




Boss DS-2

A historia deste pedal é a seguinte, Eu ouvi uma música do Red Hot um dia e adorei um dos timbres, pesquisei e era este carinha. Resolvi comprar o pedal então e desde então ele está comigo. Pretendo escrever um post com mais detalhes. Eu gosto de usar esse pedal principalmente empurrando o drive do amp. É um pedal que não raramente vai pro board de gigs.


SansAmp GT2 - Tech 21


Esse pedal é muito conhecido devido a ter tido uma febre sobre ele nas últimas 2 décadas. Eu pretendo escrever um post só pra este pedal mas por hora posso dizer que não curto muito o som dele plugado num amp. Pra mim ele serve como um simulador analógico que você pode usar quando pluga a guitarra numa mesa de som ou gravações diretas. Atualmente ele está no meu Set pras gravações de baixo, a versatilidade e as características de timbre e compressão parecidas com um amp valvulado, que ele adiciona ao som, é o que me chama atenção nele;



Também passaram por aqui...



Wylde Overdrive - EFX


Este clone do Zw-44 da Dunlop costumava ser usado pra bases por mim, euqnato o The Drive da MG se encarregava dos solos. Uma curiosidade sobre ele é que ele seria usado pras bases do disco do Valete in Blues. Porém no dia da gravação ele estava captando muito sinal de rádio, então optamos por fazer tudo com o The Drive. Com a aquisição de novos amps e pedais este foi ficando meio de lado e acabei vendendo.


Alien Booster - Mg Music


Após um tempo tocando com vários pedais de drive comecei a ficar incomodado com as mudanças drásticas no timbre quando mudava de um para o outro. Eu queria criar variações de sons, porém com base no mesmo som, pois assim acredito que soe mais orgânico, mais natural.
 Então trouxe esse boost de Germanium da MG para compor meu set. O que começou a me incomodar um pouco foi que ele cortava meus graves quando acionado, depois li que isso é uma característica presente nos modelos baseados no Rangemaster. Portanto acabei optando pelo Power Driver-SI e passei esse pedal pra frente.


The Drive - Mg Music

 Este pedal foi meu único drive durante a gravação do disco do Valete in Blues. Porém com o passar
do tempo fui achando que ele era "colorido" demais pro meu gosto. Desta forma fui optando por outros pedais e deixando ele cada vez mais encostado em casa, até que resolvi vendê-lo.
 Este pedal é um Fuzz Face com os médios de um tube screamer, ele tem um toogle switch que permite escolher 3 tipos de configurações sonoras. A primeira mais grave, a segunda um timbre bem agudo e magro, e o terceiro é um meio termo entre ambos.

Até hoje gosto do timbre quando ouço as gravações do VIB e esse pedal ficou registrado ali.




Se quiser sacar o timbre ouça essa música que está no álbum do Valete in Blues:






Por enquanto é só, enquanto ainda estou gravando as guias do CD , sem duvida trarei mais pedais pra testes, e atualizarei o post novamente.


Fui
Filipe Zanella